Textos e Recursos

Revolução escolar construída ao ensinar estudantes a serem estudantes

01webster042508-full1.jpg
Cinco anos atrás suspensões abundavam na Webster Elmentary. Brigas ocorriam regularmente no intervalo e professores temiam ataques violentos de alunos de sexta série envolvidos com gangues. A nova diretora Jennifer White ficou chocada ao descobrir que a escola tinha tido setenta suspensões no ano antes à sua chegada, e oitenta no ano anterior.

“No meu primeiro ano, num dia às dez da manhã uma substituta estava na frente em lagrimas”, diz Becky Tewalt, uma fonoaudióloga que começou a trabalhar em Webster em 2000.. “Ela estava cheia.”

Avance para 2008. Os estudantes alegremente cumprimentam seus professores pelo nome, fazem fila rapidamente e escutam respeitosamente uns aos outros na aula. A procissão sem fim de alunos para o escritório do diretor acabou. White agora passa suas manhãs andando livremente pelas salas e filmando as melhores lições que eles tem

“Ela mudou a escola, eu estou dizendo” diz Lydia White, sem parentesco com Jennifer, uma conselheira que trabalha há trinta anos na escola. Seus olhos começam a lacrimejar. “Eles estão florescendo. Isso me surpreende.”

Os professores escrevem na lousa as instruções de um programa local que explicitamente ensina estudantes a se comportarem nas aulas. Trabalhando em cima dos esforços iniciais de Buguev para melhorar a disciplina, Jennifer White e seus professores criaram o Método Webster, que trabalha com “comportamentos escolares” como contato visual, limpeza do seu lixo e cumprimentando professores pelo nome. Algumas habilidades são geralmente esperadas mas não ativamente ensinadas, diz White.

Professores em Webster dedicam de dez a vinte minutos diariamente ao treinamento desses comportamentos e sobre porque eles são importantes. Durante o dia, eles evocam o Método Webster.

“As escolas acham que os alunos irão chegam e que eles sabem o que fazer” diz o psicólogo da escola Steve Franklin. “Em Webster, ensinar um aluno a ser um aluno é realmente importante. Nós não esperamos que eles saibam ler, fazer contas ou escrever. Então por que não estamos ensinando essas coisas também?”

Parece simples e dificilmente radical. Mas os resultados foram dramáticos. A escola de Webster viu as suspensões despencarem e os resultados nos testes estourarem desde do Método Webster. Apenas dez alunos foram suspensos ano passado. Os resultados nos testes colocam Webster no topo de outras escolas com mesma demografia no estado.

Estudantes agoram peregrinam para a escola voltada à ciências. Escolas temáticas como Webster centram seu currículo num tema e atraem estudantes de toda a cidade. Em 2003, poucos estudantes vieram a Webster de qualquer lugar, hoje metade dos seus alunos escolheram Webster ao invés das escolas próximas de casa. Educadores de Visalia[1] e Los Angeles e mesmo de Michigan visitaram Webster para ver a transformação.

“Isto é novo. Isto functional” disse Susie Althof, uma professora de educação infantil que trabalha há nove anos na escola. “E se isso funciona aqui pode funcionar em qualquer lugar.”

O Método Webster surgiu de um esforço da escola em entender a pobreza e seu impacto na educaçao. A maioria dos professores da escola são brancos. Seus estudantes vêm de família latinas e negras de baixa renda. Professores leram e refletiram textos sobre pobreza e a diferença de aprendizado, mas o Método Webster surgiu dos seus próprios esforços para observarem e documentarem o que diferenciava o seus melhores alunos. Eles fizeram anotações sobre seus alunos com melhores resultados e depois tabularam a sua pesquisa.

Os melhores alunos, eles descobriram, haviam desenvolvido um código de comportamento que equivalia ao sucesso. Eles se pronunciavam em sala de aula. Eles sabiam quando falar e quando conversar. Eles olhavam para os seus interlocutores. Estes comportamentos – não seu brilhantismo – os separava dos seus colegas de pior desempenho e permitia que eles absorvessem informação. Se a escola explicitamente ensinasse a seus alunos esses comportamentos, White pensou, eles não se sairiam melhor?

Pesquisa na preparação para a escola focou nas crianças com habilidades acadêmicas e em como elas se relacionavam com a educação dos pais, diz Pámela Davis-Kean, uma pesquisadora e professora assistente no Instituto para Pesquisa Social da Universidade do Michigan. Filhos de advogados, médicos e professores têm maior probabilidade que seus colegas de conhecerem números, letras e de ouvirem uma quantidade maior de vocabulário antes das aulas começarem.

“ Se você é filho de um técnico de basquete e começa a jogar, você irá entendê-lo melhor que garotos que nunca cresceram em torno do jogo” explica Kuby Payne, autor do livro A Framework for Understanding Poverty que os professores de Webster leram antes de desenvolver sua abordagem.

Normalmente, os esforços para diminuir as diferenças de desempenho centraram-se tradicionalmente em conseguir que os alunos em desvantagem melhorassem academicamente. Mas Webster estendeu esta jornada para ensinar “habilidades leves” e comportamentos que melhoram os aprendizado. Outras escolas de San Diego também focaram pesadamente no comportamento, incluindo as charter schools de Gomper e Keiller, que instituíram uniformes e foram influenciadas pela Amistad Academy de New Haven, Connecticut.

“Eles não ensinam isto num programa de formação de professores” diz White. “Geralmente com o comportamentos as orientação são para dizer a eles para falarem de forma clara ou não resmugarem. Como podemos ter um ambiente de sala de aula sem contato com os olhos.?”

Um dos métodos é trabalhar com papéis. Ao invés de simplesmente entregar o Método Webster como uma lista de regras os professores criam cenários. Depois, eles encorajam alunos a explorarem as razões das regras serem importantes. Antes que a classe de primeiro ano de Teri Coker embarcassem numa pesquisa sobre joaninhas, Coker e seus alunos trabalharam sobre como compartilhar as idéias que achavam nos livros da biblioteca. Enquanto fazia a apresentação, Coker alegremente anunciava “Grupo, eu encontrei um dado!” toda vez que ela descobria algo sobre joaninhas.

“Quando na biblioteca nós realmente ouvimos eles dizendo ‘Grupo, eu encontrei um dado!” Coker diz “Nós não conseguíamos parar de rir! Mas olhe – está funcionando!”

O sucesso de Webster traz implicações dramáticas sobre as ferramentas necessárias para superar o déficit de desempenho entre filhos ricos e pobres. Ao ensinar ativamente comportamentos de aprendizado Webster acredita que “decodificou” a escola para alunos de baixa renda, liberando tempo da escola para aprendizado ao invés da disciplina.

“Ninguém tinha realmente explicado isso para eles antes” diz a professora da Pré-Escola Susie Althof. “Em uma semana os resultados foram dramáticos. Era como uma tempestade tivesse passado por nossa escola. E os alunos reconheceram. Eles sabiam o que se esperava deles e que eles estavam recebendo respostas positivas por causa disso. E as crianças andavam com suas cabeças em pé. Alguém havia quebrado o código para eles.”

A tranquilidade abriu caminho para métodos de ensino que permitem aos alunos mais independencia e abriu um surpreendente debate intelctual entre os alunos. White pediu aos professores que aumentassem a discussão em classe para que os alunos que estão aprendendo inglês, que são mais de 40% dos alunos passem mais tempo falando. Alunos lêem e conversam em duplas.

Ao invés de chamar um simples aluno para responder uma questão a professora de terceira série Jeralyn Treas pediu para que os alunos em dupla se espalhassem para discutir que tipo de sentenças – declarativa ou interrogativa – estavam no teste de soletremento. A sala entrou em polvorosa. Um minuto depois, se reagruparam.

“Eu vi realmente uma conversa muito legal acontecendo – uma discussão – e eu queria que eles a compartilhassem com a gente”. Treas disse. Duas meninas recomeçaram a conversa, em que elas discordavam sobre uma resposta. Depois de conversar com sua parceira uma menina mudou de opinião.

“Ela está fazendo você pensar de forma diferente agora?” Treas perguntou: “As vezes se alguém te desafia com uma idéia você pensa “Oh, eu tenho que defender meu ponto de vista’. Mas o que ela fez é realmente confortável, não é?”

As crianças parece que encontraram a glória com o Método Webster. Na aula eles corrigem os comportamentos uns dos outros. Em casa, eles se lembram do código. A mãe voluntária Ângela McPhatter agora invoca o Método Webster quando aconselhando sua filha sobre como lidar com valentões. A vice-diretora Marisol Marin lembra de uma reunião sobre faltas em que um aluno do segundo ano era perguntado sobre a razão de não ter perdido aulas desde de ter se transferido à Escola Webster.

”Ele disse. “Eles têem este Método Webster’. E o funcionário perguntou ‘O que é o Método Webster?’”. Marin disse. A criança começou a dizer as regras, reocorda Marin. “Funciona porque você não quer desapontar seu professor ou você mesmo. É melhor que ganhar um pedaço de alcaçuz ou uma estrela no final do dia”.

Alguns professores estavam inicialmente cépticos, White se lembra. Um se perguntava se o Método Webster era apropriado para crianças que vieram de culturas que desencorajam o contato visual. É uma lembrança que parece de fato mexer com White enquanto ela se lembra do desenrolar do programa.

“Se você acredita que algum pai fosse ficar infeliz, então os chame e pergunte” White se lembra dizendo. “Porque ao contrário você está perpetuando a pobreza. Meu marido, o homem de negócios, não irá te contratar no mundo corporativo de você não fizer contato visual.”

Visitantes contam a White, com surpresas, que os alunos dela parecem com quaisquer outros alunos. O comentário que derrubam os estereótipos que se perpetuaram ao sul de San Diego, e a assunção de que crianças em desvantagem não podem superarr as circunstâncias, White diz. Eles podem, ela insiste, e com métodos como o Método Webster elas irão.



 

[1] Cidade na região central da Califórnia, no Vale de San Joaquin, região pobre do estado.

Newsletter

Newletter quinzenal

logonews.jpg

23 de junho a 8 de julho- Número IV

 

Professores-Mundo:
Estados Unidos

Califórnia: Karen Salazar atraiu a atenção nacional ao ser demitida de uma escola em Watts, um subúrbio de Los Angeles, por ser muito “afrocêntrica” e por indoutrinar alunos. A mulher pedia a leitura da auto-biografia do líder radical negro Malcolm X e trazia raps de Tupac Shakur e atraiu manifestações de apoio de estudantes e colegas professores.

Califórnia II: Omar Khan, um estudante de dezoito anos, corre o risco de pegar trinta e oito anos de prisão por ter hackeado os computadores de sua escola para fraudar suas notas.

Isso é mais que um homícídio rende no Brasil.

Massachusetts: Em Gloucester High, um colégio na pequena cidade de Gloucester, 17 adolescentes fizeram um pacto para ficarem grávidas e criarem filhos juntas. Um dos pais é um sujeito de vinte e quatro anos sem teto. Segundo as ditas, elas queriam alguém que as amasse “incondicionalmente”.

Texas I: Cada vez mais distritos pelo estado estão desistindo de programas de gratificação por mérito. Em muitos distritos isso é motivado pela oposição de professores, que não vêem uma forma justa de distribuição de dinheiro enquanto outros citam que já há ênfase demais em exames padronizados.

Texas II: Começou o julgamento dos responsáveis por uma creche aonde crianças de até cinco anos seriam supostamente dopadas para fazerem atos de sexo para uma platéia de adultos. A primeira vista seria um crime revoltante, mas as descrição é meio absurda demais para ser verdade.

Lembra um pouco as descrições iniciais do caso Escola Base, por mais que as provas aqui sejam mais concretas.

Reino Unido

Ciências: Segundo a organização Ofsted, o ensino de muitos professores de ciências é prejudicado por uma formação ruim e falta de confiança, que faz com que muitos se prendam a textos ao invés de experimentos práticos.

Políticas educacionais

Falar menos durante as aulas: Celia Lashlie, uma especialista em educação britânica, diz que as professoras deveriam falar menos e mais baixo para que os alunos tivessem tempo para pensar. Segundo Lashlie, que faz um estudo sobre a aprendizagem de meninos na Nova Zelândia, em algumas aulas o ouvido dela doía no final.

Ela também pediu uma desfeminilização da profissão docente e uma maior participação dos pais na educação dos filhos.

Bons diretores: O que faz um bom diretor? Segundo vários profissionais entrevistados pela Teacher Leaders Network, do site Teacher Magazine, o bom diretor deve saber escutar antes de falar, ser acessível a pais, professores e alunos, andar pelos corredores para saber o que acontece na escola e motivar seus professores.

Brasil-São Paulo

Greve de Professores:Diversas notas têm saído na imprensa sobre a greve de professores da rede estadual em São Paulo. A notar:

1-) O número de dois porcento de paralisação divulgado pela Secretaria da Educação e bovinamente pela imprensa é ridículo. Mesmo se falar que a adesão à greve é baixa é um tanto quanto ridículo. Muitas cidades na Grande SP ficaram sem aulas na rede estadual(Caieiras, Franco da Rocha, boa parte das escolas na Zona Leste da capital), há escolas com adesão parcial. Os dois porcento que se cita não englobam nem minha escola-sede, em que a adesão foi quase nula. Se a imprensa continuar a macaquear que a greve têm adesão baixa será desmoralizada pelos próprios pais de alunos sem aulas.

2-) O único ponto em comum entre todos os professores da rede são os baixos salários. O decreto sobre as transferências dos efetivos e o exame para os temporários é um estopim, mas muitos concordam com vários trechos dele. Muitos concordam com o exame para os temporários, outros concordam que há transferências demais na rede.

Se bem que o problema no caso é o fato de muitos precisarem morar perto de suas famílias(Ou mesmo terem dois empregos) para se manter, o que exige transferências até que se consiga morar perto de casa.

3-) A APEOESP não faz greve, ao contrário do que este editorial ridículo do Estadão dá a entender. Quem faz greve de professor é professor. Já vi assembléias convocadas pelo sindicato em que não se contavam duzentas pessoas numa contagem otimista. E a greve saiu num momento em que o sindicato estava desmoralizado. Se a greve saiu é porque os professores estão insatisfeitos, não por manobras do sindicato.

Newsletter

Newsletter quinzenal

logonews.jpg

2 de junho a 15 de junho- Número III

Professores Mundo

Estados Unidos

Geórgia: Uma professora substituta numa escola em Stone Mountain, Georgia, envolveu-se numa briga com chutes e pontapés com uma aluna depois que a última ter dito que tiraria sua peruca. A coisa toda foi filmada num celular.

Carolina do Sul: Ryan Schallenberger, um estudante colegial de 18 anos em Columbia, Carolina do Sul, pode pegar 40 anos de cadeia por ter tentado explodir sua escola com uma bomba de destruição massiva.

Eleições Presidenciais: O No Child Left Behind, o programa federal de distribuição de verbas a estados e distritos de acordo com resultados(em especial em testes padronizados em matemática, ciências e leitura) entrou na pauta da disputa presidencial. Barack Obama criticou fortemente o programa por forçar estudantes e professores à se prepararem a um único exame em detrimento da aprendizagem, enquanto que propôs programas para incentivar a contratação de professores.

Europa

Reino Unido: Cientistas ingleses criticaram o currículo das escolas na área de ciências por ser simplório demais e pela ênfase em questões de leitura e leitura de gráficos. Parece que já vi esse filme em algum lugar, só que num estado de um país da América do Sul…

Ásia

Coréia do Sul: Famílias na Coréia do Sul têm sido divididas por um motivo curioso: o pai fica na Coréia do Sul enquanto mãe e filhos se mudam para um país de língua inglesa(Em especial a Nova Zelândia) para que estes estudem. O objetivo é adquirir uma boa fluência em inglês e fugir do sistema de ensino sul-coreano, excessivamente exigente e caro.

Brasil:

Cinema Nacional: O Senador Cristovam Buarque(PDT-DF) apresenta no Senado Federal mais um projeto de lei maluco para remendar a LDB. O senador quer que as escolas exibam ao menos duas horas mensais de filmes nacionais aos alunos. Na pior das hipóteses é mais uma justificativa para se diluir ainda mais o currículo das escolas de Ensino Básico com filmes, na melhor das hipóteses é inócua.

Nisto, a LDB parece ficar ainda mais diluída.

Obrigatoriedade de Filosofia e Sociologia: A mudança na lei instituindo as duas disciplinas têm sido alvo de polêmica por uma série de motivos, inclusive por medos de doutrinação. Bem, há vários pontos aí. Primeiro, a obrigatoriedade das matérias em nível nacional é uma coisa, a necessidade destas matérias no currículo das escolas outra.

Por outro lado, o ponto de que se a escola não consegue ensinar nem o fundamental(Ler e escrever) não poderia ensinar Filosofia não faz tanto sentido. Não há menor necessidade de se confinar o trabalho com escrita e leitura à matéria de Português e ambas as matérias podem ser usadas de forma eficiente para isso(Em muitas escolas que trabalhei havia mais textos em Filosofia que na matéria de Português). E se a questão for doutrinação, bem, só se todas as matérias forem abolidas em prol de matemática.

São Paulo

Decreto: Não se fala em outra coisa nas salas de professores. O Decreto 53.037, de 28 de maio estabeleceu uma série de regras prejudicando a remoção de vários docentes, sinalizando um processo seletivo para os temporários e ainda regionalizando os concursos. Pontos a se notar:

1-) A não-remoção para docentes em período probatório é injusta. Isso prejudica professores inclusive que nunca faltam, que inclusive podem ser prejudicados em projetos pessoais, como um mestrado ou casamento.

2-) O problema de professores de cidades do interior lecionando quinhentos quilômetros de casa na Grande São Paulo seria irrelevante se os salários não fossem tão ruins. Nesse caso, era só se montar um cantinho perto de casa e viajar para casa nos finais de semana ou mesmo quinzenalmente.

O problema é que o salário baixo exige uma relação próxima demais do docente com a família, daí, claro, surge a exoneração quando não se consegue uma vaga próximo de casa.

3-) A regionalização dos concursos não funciona, ainda mais se esta regionalização seguir o decreto e for centralizada por diretorias. Há bairros de São Paulo próximos de umas seis diretorias. Por exemplo, na Barra Funda aonde as Diretorias de Osasco, Centro, Centro-Oeste, Norte 1 e 2 ficam distantes por poucos quilômetros. E para quem mora perto do metrô uma escola perto do metrô fica mais próxima que grande parte das escolas da mesma diretoria sem este serviço.

4-) A idéia de concursos para OFAs(Os temporários) pode ser atrativa para iniciantes que não poderam fazer um concurso e agonizam como eventuais, mas não há garantias. Atribuição de aulas para OFAs na escola invariavelmente dá problemas e os pontos ainda irão contar muito(Isso se for concurso mesmo, feito por uma VUNESP da vida, o que não é barato). Talvez alguns OFAs com muitos pontos se veriam desempregados por terem sido reprovados, mas para os novatos isso não melhora em nada.

5-) E há um detalhe pouco notado: muitas escolas têm um déficit de professores, em especial na área de Exatas. Mesmo em escolas bem localizadas é comum se ver licenças saúde de professores de Física sem que se apareça um substituto. Quando uma amiga minha desistiu de suas aulas de Química a escola ficou uns dois meses sem professora até conseguirem um estudante para tal(Que havia feito a inscrição no meio do ano).

Se quem não fizer a prova não puder pegar aulas a coisa complica. Ainda mais se professores que não conseguirem aulas em uma diretoria não poderem tentar em outra(E em muitas diretorias totalmente localizadas na periferia esse fenômeno é importante).

O decreto foi sustado e deverá ser votado na Assembléia. Até lá, email nos deputados. Isso não afeta só professores.

 

Introdução

Texto: Arte Anônima: Os cartazes que inspiraram a revolta de 1968

Tradução de artigo do The Independent 

Arte Anônima: Os cartazes que inspiraram a revolta de 1968

Entre os trabalhos em silkscreen temos cartazes pedindo a estudantes à apoiarem os operários e alertando a população contra o apoio bovino ao mando de um presidente antiquado.

Por Jonathan Brown

Terça, 13 de março de 2008

A identidade dos artistas que os criaram é um dos grandes mistérios não solucionados da história da moderna arte de protesto, ainda assim o trabalho destes designers desconhecidos continua um dos mais poderosos testamentos do espírito revolucionário de sua era.

Cerca de 48 cartazes foram colocados em fábricas e escolas de arte na França irrompida em confrontos no auge do événements conclamando estudantes e trabalhadores a tomarem as barricadas e paralisarem o ultra-conservador governo de Charles de Gaulle[1]  com uma série de greves e protestos. Eles serão exibidos na Hayward Gallery este mês como parte de uma série de eventos marcando o 40º. Aniversário das revoltas que engoliram a Europa em 1968.

Esta coleção sem igual foi montada pelo escritor e curador de Nova York, Johan Kugelberg . Entre os painéis em silk-screen, produzidos de forma apressada e colada nos muros e edifícios pedindo que os estudantes apóiem os operários e alertando o público contra a obediência bovina ao mando reacionário de um presidente velho.

No auge da revolta, quando os estudantes tomaram a École dês eaux Arts [2]para formar o Atelier Populaire, ou o Ateliê Popular os cartazes foram descritos pelos líderes estudantis como “armas à serviço da luta… uma inseparável parte dela”

Kugelberg passou a última década exaustivamente ajuntando sua coleção. Ele acredita que apenas 150 a 200 gravuras foram produzidas durante apenas poucas semanas naquele ano.

“Elas são raras, realmente raras” ele diz “O problema é que você não pode ir simplesmente à Sotheby´s ou à Christie[3], ou mesmo procurar na eBay[4] por elas.Elas existem apenas em coleções particulares, mercados de pulgas no subúrbio e só podem ser descobertas por meio de um sério trabalho de investigação.”

As revoltas de 1968 pegaram a classe governante da França de surpresa. Em sua mensagem de ano novo de 1967, de Gaulle acreditava que os problemas tinham ficado para trás. “É impossível ver como a França hoje poderia ser paralisada pela crise como ela o foi no passado.”, ele disse. Mas o problema estava irrompendo pelo mundo. Em Janeiro de 1968, o lider reformador comunista Alexander Dubcek tomou o poder em Praga[5], enquanto semanas depois começava a Ofensiva de Tet[6] contra tropas americanas no Vietnã.

Inquietação profunda contra a guerra irrompeu além dos campi universitários e das cidades, muitas das quais já sentiam o impacto do crescente movimento de direitos civis.

Em março houve violência quando manifestantes contra a guerra cercaram a embaixada Americana em Londres. A oposição à guerra se intensificaria pelo mundo enquanto relatos de atrocidades proliferaram. Em maio Paris estava em chamas.



 

[1] Presidente Francês(1959-69) e líder da resistência francesa na Segunda Guerra.

 

[2] A mais famosa escola de belas artes da França.

 

[3] Duas famosas casas de leilões de obras de arte.

 

[4] Site de leilões de objetos usados.

 

[5] Maior cidade da República Checa e sob influência comunista então.

 

[6] Violenta ofensiva contra tropas americanas no Vietnã que seria a maior derrota americana na Guerra do Vietnã até então.

Textos e Recursos

Todas as caras do Renascimento

Do El País, de Madrid 

Todas as caras do Renascimento

O Prado acolhe a uma histórica mostra do gênero como a si próprio

ÁNGELES GARCÍA - Madrid - 31/05/2008

É a exposição da temporada no Museu do Prado. Miguel Zugaza, diretor do museu, vai mais longe. “Não acredito que tenha havido tantas obras primas dentro de uma mesma exposição em nenhum outro momento da História do Museu.” Um passeio entre os sublimes retratos do Renascimento convencerá mais de um(Depois da abertura ao público na terça feira) de que isso não trata de um exagero. O marco temporal não foi escolhido por acaso. É no Renascimento que o retrato nasce como gênero artístico autônomo(Não ligado a ornamentação de edifícios) e alcança níveis que nunca foram superados. Por que? Pelas mesmas causas que se encomenda um retrato. O amor, o afã de fazer presentes os ausentes, a afirmação do próprio status. As causas podem ser múltiplas e todas se dão no Renascimento.

O El retrato del Renacimento(O Retrato do Renascimento) é a primeira mostra que aborda o gênero de forma global. Com 130 obras primas de Jan van Eyck, Rubens, Piero della Francesca, Durer, Tiziano, Rafael, Botticelli e Antonio Moro.Organizada em colaboração com a National Gallery – a exposição viajará a Londres em outubro – é uma mostra de extraordinária complexidade, segundo Zugaza, que indicou que foi preciso conciliar as vontades de muitas instituições. 40% das obras pertence ao acervo do Prado e o resto é emprestada.

E se você tiver que destacar nomes? O diretor argumentou que todas as peças são obras primas e que, além disso, há artistas que aparecem pela primeira vez neste museu como é o caso de Piero della Francesca, Jan Van Eyck, Domenico Ghirlandaido, Giorgione, Holbein e Túlio, o Lombardo. “Esta exposição eleva o nível acadêmico do museu”.

Miguel Falomir, chefe do Departamento de Pintura Italiana do Renascimento do Museu do Prado foi o curador de uma exposição tão singular. “O retrato é um dos temas mais importantes da História da Arte, mas nunca tinha sido alvo de uma exposição como gênero pictórico autônomo. Os primeiros que se conhecem pertencem a Giotto, mas so se tem os registros históricos, não se salvaram.” Falomir reflete na exposição duzentos anos da História da Pintura, dos Séculos XV e XVI na Europa, e mais especificamente nos Países Baixos, Alemanha e Itália. “As obras se centram no que se conhece como retrato democrático” explica Falomir. Até então, só se faziam retratos de príncipes, reis e papas. No Renascimento os artistas começam a receber encomendas de pessoas de quase todo o espectro social. Os casamentos exigem retratos em par, os pais pedem que se imortalize suas filhas na véspera da boda, o marido deixa o registro pintado de sua esposa. Cada quadro guarda uma história humana e é mérito do artista saber conta-la. Um exemplo? O retrato de Mary Neville, Baronesa Dacre, pintado por Hans Eworth em 1555. No primeiro plano aparece uma baronesa com expressão de profunda tristeza. A fundo um pequeno retrato em que se vê seu esposo. Um nome e uma data dão a chave da desoloção da mulher. Da data é aquele em que seu marido havia sido enforcado, aos 24 anos, como criminoso comum. Havia matado um empregado durante uma expedição de casa. E ela se viu sem marido, casa ou terras.

Na exposição, organizada cronologicamente, se observa que o retrato foi de pequeno tamanho(30 a 40 centímetros) em seu início. Estavam pensados para serem guardados em caixas, que faziam as vezes de álbuns fotográficos. Ao avançar do Século XV crescem de tamanho, pois são encomendados para que o mundo os contemple. Os retratos de Tiziano que ocupam a última sala alcançam até três metros de altura.

Pouco depois do mestre italiano a exposição chega ao fim. E aí surge a pergunta: Há ausências de peso? “A Mona Lisa”, reconhece Falomir. “O Louvre nunca a empresta. Da forma que ela foi relacionada ao ‘O Código da Vinci’ melhor”.

Newsletter

Newsletter quinzenal

logonews.jpg

18 de maio a 1 de junho- Número II

Professores - Mundo

Estados Unidos-Flórida: Tiffany Shepherd, uma professora de biologia da Flórida causou polêmica ao afirmar que teria sido demitida por causa de seu segundo emprego, como atendente de biquini de um barco de pesca(Aonde Tiffany dizia ganhar mais em dois dias que em uma semana dando aula.

O distrito escolar rebate e diz que Tiffany teria sido demitida por absenteísmo(Vinte faltas num ano segundo a professora, trinta segundo o distrito). Na dúvida, clique para ver fotos da moça em ação.

Estados Unidos-Califórnia: O estado da Califórnia, no meio a uma forte crise fiscal se prepara para demitir quatorze mil professores.

França: Sarkozy parece disposto ao incrementar o currículo francês com um tom, hmm, digamos assim, meio politicamente correto. Depois do Holocausto, é a escravidão e o tráfico negreiro que entrarão no currículo primário francês.

França II: Sarkozy parece querer colocar na prática a reclamação de muitos professores brasileiros de que as escolas viraram depósitos de crianças. O presidente quer abrir as escolas e receber os alunos durante as greves de professores para que o direito de greve dos professores possa conviver com o direito de cuidados e de trabalho dos pais. Hmmm…

São Paulo

IDESP- O governo de São Paulo anunciou tal do IDESP, que seria um indicador da qualidade de ensino para cada escola. Hmmm. Não é tão simples assim, claro, como a menina do Estadão quer dizer.

Primeiro, o tal índice é formado por dois números: os resultados nos testes padronizados da própria Secretaria da Educação e pelos números de retenção. Isso abre um pretexto terrível que é a possibilidade das escolas simplesmente treinarem para os benditos testes ao invés de se preocuparem com resultados(Foi o que ocorreu no estado americano de Maryland). Caso o ENEM e outros indicadores entrassem no bolo esses efeitos poderiam ser minizados.

E qualidade de ensino é diferente de desempenho. Fatores como estrutura e renda familiar respondem por um bom naco dos resultados nos testes. Claro que isso não quer dizer que a escola não deva ser responsabilizada pelos resultados dos seus alunos(E claro, o governo estadual que a administra), mas fatores como a renda e localização deveriam de alguma forma ser considerados nesses números. Aliás, minha experiência pessoal parece demonstrar que escolas bem administradas em regiões periféricas obtém resultados inferiores e/ou próximos de escolas pessimamente administradas em regiões centrais.

E obviamente a proposta irá simplesmente inflar artificialmente o número de alunos aprovados, em especial no Ensino Médio.

Melhores escolas estaduais: Depois do Ruy Bloem(Uma escola em Martinopólis, bairro de classe média alta em São Paulo) a imprensa e a Secretaria da Educação exaltam outra escola em uma região central, agora em Sâo Carlos, a Eugênio Franco.

Todos os docentes e profissionais destas escolas merecem o parabéns pelos resultados, mas pessoal, menos. Não é nessas escolas que se encontrará os problemas de Ensino do estado, que se tornam mais graves em áreas de alta vulnerabilidade social. O debate seria enriquecido se experiências boas em escolas em vizinhanças pobres fossem destacadas, não escolas em bairros de classe média.

Arte/Agenda

Hiroshige: No meio de toda essa patacoada sobre Centenário da Imigração Japonesa a rápida exposição da “As 36 Vistas do Monte Fuji”, de Utagawa Hiroshige na Pinacoteca de Sâo Paulo têm recebido menos atenção que deveria. Isto é talvez uma das séries de obras mais famosas da arte japonesa, quase que o equivalente da Capela Sistina em termos representativos.

Até 25 de maio, em frente da Estação da Luz. Em dia da semana, professor da rede estadual de Sâo Paulo com holerite não paga. É a chance de ver as mesmas obras que encantaram Monet, Gauguin, Van Gogh e a nata da arte européia do final do Século XIX.

Outros estados

Christiane, de Minas Gerais, pergunta sobre atividades pedidas pelo governo mineiro. Eu não gosto de gente pedindo atividades por dois motivos: primeiro, todo tipo de atividade que eu tenho que estão de fato bem articuladas que já foram disponibilizadas online. : O segundo é que isso reforça a idéia de uma aula baseada demais em atividades, não em conceitos profundos que possam adicionar algum tipo de aprendizado aos alunos.

De qualquer forma, a idéia de uma análise de propostas de outros estados é tentadora. O problema é que malemal tenho conseguido analisar e adaptar a proposta de SP(Quem sabe se eu conseguir professores de outros estados para dar uma força?), e creio que se as secretarias querem criar propostas curriculares deveriam se empenhar por uma proposta que fosse simples e fácil de entender. Proposta complicada e sem material de apoio é dureza…

 

 

Newsletter

logonews.jpg

4 a 18 de maio- Número I

Nota: Como o site estava meio parado decidi fazer um clipping quinzenal de notícias relacionadas à educação. Quem quiser, pode assinar para receber por email.

Educação e Professores - Mundo

França: Depois dos professores ingleses, agora é a vez dos professores franceses marcarem uma greve. A semana 13 a 17 será de mobilização, com greve no dia 15. As demissões e reformas pedagógicas do governo Sarkozy são a grande motivação.

Estados Unidos: Diversos jovens professores na região de Washington DC estão encontrando problemas por causa de informações em seus perfis pessoais em sistemas como Facebook e MySpace. Há páginas com conotação sexual e professores que trabalham com deficientes fazendo piadas sobre os mesmos.

Muitos distritos pelo país estão usando esses perfis para entrevistas de contratação de professores.

Administração Escolar

Faltas docentes: Como diminuir o absenteísmo docente? Sabe-se que faltas docentes afetam o desempenho, mas ainda não há um consenso entre as práticas que podem ser usadas para tal. Muitos economistas sugerem prêmios para faltas não utilizadas, que inclusive podem ser dias na aposentadoria. Certo, quem é de São Paulo lembra-se que isso era um dos fatores do bônus, mas isso nunca foi aplicado de forma precisa(Muitos professores que não faltavam reclamavam de ganhar menos de quem faltava).

Mas há outras sugestões sendo aplicadas pelos Estados Unidos. Pesquisadores sugerem que o professor seja obrigado a relatar suas faltas médicas diretamente ao diretor, que seria treinado para explicar como que isso afeta o desempenho escolar. Em Chicago, escolas com alto número de faltas são monitoradas para se pesquisar a moral dos docentes e a liderança e o apoio da direção. No distrito escolar de Salem-Keizer, no Oregon, as três faltas permitidas aos docentes(Nossas abonadas) não podem ser usadas em véspera de feriados e férias.

As professoras reclamam, claro, uma vez que precisam de licenças para os filhos também. Mas como diminuir essas faltas sem sobrecarregar os professores que de fato necessitam faltar por razões médicas?

Remuneração por mérito: Não há palavra mais usada na educação brasileira no momento e recentemente a Revista Época chamou dois acadêmicos(Um economista e um pedagogo para discutirem o assunto) Meu ponto de vista parte por três pontos:

1-) Eficiência escolar é diferente de desempenho: Como todo mundo sabe, a principal variável no desempenho dos alunos são socioeconômicas, não escolares. É muito difícil separar ambos e este é um terreno perigoso que gera ainda mais incentivos para que os professores evitem escolar na periferia.

O citado Chicago Boy Eduardo Andrade, Gilberto Dimenstein e outros defensores da idéia simplificam demais a experiência dos distritos americanos(Em Maryland, a recuperação por mérito é criticada por ter feito que os docentes se preocupassem mais com os testes padronizados que com desempenho). O ponto não é a tal gratificação, mas sim como aplicá-la.

2-) Remuneração por mérito é recompensa, não punição: Francamente, remuneração por mérito deve ser usada para se recompensar boas iniciativas. Se o professor é culpado por faltas administrativas graves(Exemplo, excesso de faltas) deve sofrer um processo administrativo, não ganhar menos bônus que os colegas.

Prêmios por presença docente devem ser feitos exclusivamente sobre presença, não fazer parte da remuneração por desempenho.

3-) Antes de se falar em remuneração por mérito, bem, deveriam aplicá-lo na contratação de professores: Na maioria dos sistemas escolares da rede pública a principal forma de se pontuar os docentes é pela senioridade. Tirando os concursos, cursos de mestrado e doutorado as chances de evolução funcional por vias que não sejam tempo de sala de aula são pequenas. Mesmo assim, limitadas.

Por exemplo, na rede estadual de São Paulo um professor com doutorado consegue dez pontos, que é mais ou menos a quantidade de pontos que um professor consegue por sete anos em sala de aula. Há professores temporários com vinte anos de magistério que nunca foram testados de fato, seja num concurso, seja em alguma prova(E sim, os concursos brasileiros são na sua maioria péssimas formas de se selecionar docentes).

Para os temporários, a pontuação é o que muitas vezes o separam do desemprego ou de uma jornada dividida por três escolas. Para os concursados é a chance de escolher uma escola mais próxima de casa. Antes de se falar em remuneração por mérito deveria-se ampliar o leque de maneiras que um professor têm de ampliar sua pontuação.

Por fim: Na iniciativa privada(Certo, educação não é mercadoria, mas isto é força retórica) o único ramo que gratificações por mérito(No caso, as comissões) são usadas de forma a prover a maior parte do salário é na área de vendas. E aí não só por incentivo, mas pelo fato dos lucros serem menores quando as vendas o são. Na produção, aonde a relação entre produtividade e lucro é menor, bem, essas gratificações o são também.

O discurso de se substituir aumentos no salário-base por aumentos tendo como base o mérito, bastante comum em São Paulo, não faz sentido porque ela não é aplicada de forma extensiva nem na iniciativa privada.

Pesquisas didáticas

Matemática: Pesquisadores da Universidade de Ohio descobriram que o uso de exemplos concretos em problemas de matemática é prejudicial à aprendizagem dos alunos. Por exemplo, problemas usando exemplos como pedaços de torta e estações de trem fazem com que os alunos pensem em tortas e trens, não nos conceitos matemáticos necessários.

Arte-Educação

Música: O assunto da obrigatoriedade do ensino musical nas escolas tem sido notícia por causa da pressão de diversos músicos. Ano passado, a aprovou a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas. Pelo que se entende da lei ela não cria um novo componente curricular chamado “Música”, que em tese ainda poderia ser um componente da matéria de artes, ao mesmo tempo que se exige professores com habilitação específica na área.

Em tese, isso exigiria que os arte-educadores trabalhassem com música também(Muitos não incluem isto nos conteúdos a serem trabalhados), mas ainda não entendi como que combinar isso com a “formação específica na área”.

Por mais que eu entenda a necessidade do ensino musical com gente com formação musical, meu medo é que isso incentive a criação de faculdades a toque de caixa com cursos de licenciatura em música sem muitos critérios(Certo, mal que já assola a arte-educação como um todo). A quantidade de licenciados em música é pequena.

E resta saber como que as secretarias de educação e escolas se adaptarão à mudança na LDB.

Artes Visuais

Goya: O Prado abriu a exposição “Goya em tempos de Guerra” em 15 de abril sem um quadro importante: o “Colosso”, de 1808. Se o quadro seria visto como uma obra prima, inclusive por nomes como Charles Baudelaire, hoje surgem dúvidas sobre sua autenticidade. Seria talvez uma das maiores fraudes ou enganos de toda a História da Arte.

Por sua vez, o museu sofreu críticas por não ter permitido que os visitantes tomassem sua decisão.

Turner: J. M. W. Turner, o paisagista inglês creditado por ter inspirado Claude Monet pode ter um leilão de sua obra alcançando recorde de preço. O quadro “A Villa de Pope em Twickenham” vai à leilão por um preço mínimo de 5 milhões de libras esterlinas(Ou quase dez milhões de dólares), mas muitos estimam que o quadro pode alcançar lances de 17 milhões de libras(Ou 33 milhões de dólares). Seria a obra inglesa a ser vendida pelo maior preço.

O leilão ocorre em Londres, 9 de julho, pela Sotheby.

Políticas Educacionais - São Paulo

Adicional por Local de Exercício - O Adicional por Local de Exercício é um adicional de cerca de 20% para escolas da zona rural e nas zonas periféricas das grandes cidades que apresentem condições ambientais precárias, localizadas em região de risco ou de difícil acesso.

O governo de São Paulo fez uma “atualização” das escolas que recebiam o benefício, sofrendo várias críticas. É preciso fazer várias ressalvas aí: o governo errou ao considerar apenas os índices da região abrigada pela escola, não do bairro(Explicando o fato de escolas muito próximas entre si ganharem e não ganharem o benefício). Também errou ao excluir cidades com menos de 300 mil habitantes da lista, o que exclui subúrbios pobres de grandes cidades(Exemplo, Varzea Paulista, Campo Limpo Paulista, Sumaré, Hortolândia, etc). Ironicamente, São Sebastião e Caraguatatuba, duas das cidades com maiores indices de homícidio pela proporção da população também.

Mas é preciso fazer uma ressalva com relação às críticas: o ALE é importante para servir de incentivo para que os professores escolham escolas na periferia, não por ser um benefício. Se a questão é benefícios para os professores o ponto deveria ser aumento salarial.

Querer que o “benefício” seja estendido a todas escolas, como defende a APEOESP, é loucura.  Seria matar o grande atrativo da política. E por mais se possa alegar que todas as escolas estaduais tenham condições de trabalho ruins não é tudo igual. Não dá para dizer que as condições de trabalho de uma escola no centro de Botucatu e no Capão Redondo sejam as mesmas. Pior, nem que os gastos dos professores com transporte na periferia sejam iguais.

Proposta Curricular: Isso merece uma análise mais detalhada, mas eu tenho vistos vários problemas. A proposta de Artes é complexa demais(Cita-se um semiólogo, Luigi Pareyson, a rodo no livro do Ensino Médio) a ponto de eu não saber se muitos professores entenderão o que está sendo pedido. Falta material de apoio e pior, os conteúdos das disciplinas não foram integrados entre si. Por exemplo, há conteúdos que falam de linguagem em Português, mas não em Artes. E não há nada em História da Arte em Artes para apoiar os conteúdos de História.

E o conteúdo do Ensino Médio é conceitual demais: faltam pontos práticos.

Textos e Recursos

Texto: Pintores amam mártires e profetas

Robert Fisk: Pintores amam mártires e profetas

A morte de São Sebastião – flechas cortando a pele é tirada da martirologia xiita.

Por Robert Fisk – Publicado no The Independent de Londres em 19 de Abril de 2008

Nada me incomoda mais que uma grandiosa pintura renascentista que têm a mortal denominação “escola de” Por que um dos grandes mestres permitiria que um iniciante copiasse ou terminasse seus martírios e crucificações me intriga, mesmo que – numa era em que pinturas eram requisitadas por papas e duques – velocidade e sucesso comercial fossem provavelmente mais importante que orgulho artístico.

Na verdade, foi apenas quando eu examino a origem dos retratos dos “mártires”[1] do Hezbollah[2] no Líbano que eu descubro o mesmo princípio. O principal pintor dos mortos do Hezbollah – estes jovens invariavelmente fuzilados, explodidos ou bombardeados por Israel – é um homem chamado Shelala.

Mas quando eu fui procurar seu estúdio num subúrbio ao sul de Beirute, eu descobri que ele instruiria um time de entusiastas sobre como pintar o resto do “mártir” – como grande sua barba deve ser, se a bandana deve estar à direita ou a esquerda na sua cabeça – e então permtir que eles continuem trabalhando. Ele iria aparecer mais tarde para dar uma olhada num par de óculos no rosto do homem morto antes que o produto final aparece pregado num poste elétrico ou num muro de cemitério ao sul do Líbano. “Escola de Shelala”.

Eu tenho que dizer que Pinturicchio de Perugia[3] - Bernardino di Betto di Biagio para os estudantes da Renascença – está bem acima de Shelala. Suas virgens e santos do Século XV tinham a qualidade luminescente e a perspectiva que a maioria das pinturas da Renascença exalta, e a exposição da cidade de Úmbria[4] – junto com alguém confusamente chamado de Perugino of Castel della Pieve (Pietro di Cristoforo Vannucci) = e uma clastrofóbica e cuidadosa coleção de pretensão religiosa e obediência.

Mesmo assim eu esqueci o grau em que estes dois homens – junto com suas “escolas” incontáveis outros artistas menores ao redor da Itália – focaram sua atenção em mártires e eremitas, velhos e solitários ermitãos que vivem seus dias na dura contemplação na bondade e crueldade divina.

Os mártires são familiares o suficiente. O corpo de Cristo e sangue são cartas marcadas, as fontes de sangue sempre jorrando de feridas idênticas, o sangue jorrando dos pés em pequenos montes aonde monges obsessivos podem ser vistos admirando com indiscreto entusiasmo.

A violência da era se casa perfeitamente com a martirologia xiita dos imãs Ali e Hussein, cuja as feições repletas de sangue dominam os painéis atrás das grandes mesquitas de Najaf[5], Kufa[6] e Kerbala[7]. De fato, a morte de São Sebastião – flechas marcando a pele branca – vêm direto da martirologia xiita.

Um altar que eu vi em Perugia esta semana mostrava uma memorável versão prístina da crucificação, com escassos sinais das santas feridas até que no canto inferior direito eu visse aa cabeça de São Pedro com o que parecia ser um cortador de carne no topo do seu crânio, de onde jorrava o inevitável sangue. Seu rosto, olhos fechados de dor, tinha a expressão de um homem que, bem, tinha acabado de ser atingido na cabeça com um cortador de carne. Um tempo violento, a Renascença.

Mas um tempo de contemplação. Repetidamente, o velho São Jerônimo aparece no trabalho de Pinturicchio. Vezes e mais vezes, o velho ermitão aparece ajoelhado ou se arrastando em frente a uma caverna no meio de montanhas desertas, barba por fazer – as vezes gengibre, as vezes pimenta e sal – olhando para algum lugar distante.

Isto foi pintado quando os cartunistas dos Reis Ferdinando e Isabella da Espanha[8] estavam obscenamente pintando outro homem santo – Mohammed – que havia recebido outra mensagem de Deus e apenas marca a leve linha entre a devoção e o ódio. Sim, artistas espanhóis do final do Século XV superaram os pueris cartuns da Dinamarca do Século XXI.

Mas não foi apenas do profeta que São Jerônimo me lembrou. O que mais me vêm à cabeça? Bem, eu posso pensar de outro homem, com sua longa barba ficando mais branca com o tempo, que vive em cavernas e acredita e visões e mensagens divinas. Eu até o encontrei numa caverna. Uma noite numa caverna deserta deve ser tão desconfortável no Pushtunistão[9] quanto em Úmbria, por mais que os efeitos, como nos sabemos, podem ser catastroficamente diferentes.

Numa era em que supostamente devemos acreditar no “choque de civilizações” – como alguém pôde levar a sério o absurdo livro de Huntington[10] é um mistério para mim – e em fundações religiosas criadas por igualmente absurdos primeiros-ministros, não faz mal nenhum em olhar para o trabalho do meu velho amigo palestino Tarif Khalid que vive na esquina da minha casa em Beirute.

Quando ele veio pela primeira vez para ensinar em Cambridge, eu apontei para a janela do seu apartamento e me perguntei se ele não se sentia um pouco distante de casa com as torres do King´s College do lado oposto de casa. “mas do que eles te lembram, Fisk?” ele perguntou. Eu pensei por um momento antes de que a resposta óbvia surgisse na minha cabeça: “Minaretes?”. “Exatamente, Fisk!” ele exclamou.

Quando eu leio seu seminal livro, The Muslim Jesus(O Jesus Muçulmano), uma coleção de escritos e histórias sobre um dos profetas do Islã que por acaso é objeto de veneração de todos os Pinturicchios e de um declinante número de cristãos no Ocidente. Alguns são plágios claramente. Estudiosos do Islã têm um Jesus frequentemente ressuscitando os mortos – e numa história extraordinária, “desressuscitando“ os ressuscitados e os mandando de volta ao túmulo.

O homem que diz a Jesus que ele teve um olho arrancado a´pós olhar para um mulher antes de ser encharcado pela chuva é tanto uma oração muçulmana quanto uma referência a Mateus 18:9.

O encontro de Cristo com Satanás na história de Abu Hamid al-Ghazali – o demônio tenta persuadir Jesus a dizer “Não há outro deus a não ser Deus” mas sua tentativa é negada nos argumentos de que “mentiras podem se esconder mesmo no meio do bem”- deve ser um leve paralelo com a tentação no deserto..

Há uma história ou duas de prender a respiração. Jesus observa: “Quantos que tem um belo corpo, um lindo rosto e uma lingua eloqüente que acabam gritando no fundo do inferno”. E se você quer um pouco da boa e velha misoginia, experimente esta frase: “ O maior pecado é o amor do mundo. Mulheres são as cordas de Satanás. O vinho é a chave para todo mal.”

Agora há um profeta muçulmano para você. O pelo vinho da Úmbria.



[1] Os Mártires aqui são os homens-bomba, ou terroristas suicidas.

[2] Grupo guerrilheiro formado contra a ocupação israelense do Líbano em 1982.

[3] Cidade ao centro da Itália.

[4] Uma das  vinte regiões da Itália, no qual Perugia faz parte.

[5] Cidade sagrada do islamismo xiita ao sudeste do Iraque.

[6] Outra cidade sagrada xiita ao sul de Najaf.

[7] Cidade sagrada xiita aocentro do Iraque.

[8] Os primeiros reis da Espanha, formado com a união dos reinos de Castela e a Aragão. No seu reinado os árabes seriam expulsos da Península Ibérica e Cristóvão Colombo desembarcaria na América.

[9] Região na fronteira do Afeganistão com o Paquistão.

[10] Samuel Huntington, professor de ciência política em Harvard que ficou famoso por ter cunhado o termo “conflito de civilizações”, que preconizaria o confronto da chamada civilização ocidental com outras civilizações, como a islâmica.

Atividades e Métodos de Trabalho

Arte política

 

Arte e política é um assunto bastante bom para se trabalhar em sala de aula porque se reflete tanto na discussão do papel da arte na sociedade quanto à propriedades estéticas dela. Note que arte e política não quer dizer as suas opções políticas, mas sim política como um todo. Pode-se usar o hip-hop ou rock clássico, ou alusões à propaganda política dos nazistas, dependendo da série e do grau de conhecimento histórico dos seus alunos.

É importante frisar que o aluno deve se sentir livre para expressar sua opinião política, a não ser quando esta opinião recai em meandros perigosos, como a defesa do autoritarismo, racismo e opiniões semelhantes. E mesmo nesses casos o aluno deve entender o por quê disso. Muitos alunos simplesmente atacam a burguesia ou o racismo em provas(Em especial de História) para ganhar nota.

Minha sugestão é que após se discutir sobre as diversas formas de uso de discurso político e protesto usando a arte ou protestos de uma forma geral(Inclusive citando situações menos usuais, como os protestos contra o aborto), discutindo sobre a função da arte pela arte e da arte de protesto, a arte política. O hip-hop, que os alunos já conhecem, é um bom ponto de partida para uma discussão. Eu costumo mostra fotos chocantes, como esta foto do sul-africano Kevin Carter ou qualquer foto do Sebastião Salgado.

Daí, sugira uma lista de cerca de causas que os alunos possam fazer um desenho de protesto. Por exemplo:

1-) Fome

2-) Prostituição Infantil

3-) Guerra

4-) Aborto(Contra e a favor)

5-) Trabalho escravo

etc.

Para  evitar trabalhos simplórios, explique que você não quer cartazes, mas sim um desenho(A não ser, claro, que você queira trabalhar com cartazes e temática política) e peça que ao menos uma pessoa apareça na imagem, já que pessoas tendem a criar empatia com pessoas, não objetos inanimados.

É uma boa atividade não só para se debater o poder político da arte, mas para se trabalhar desenho como ferramenta de comunicação, não mera forma.

Exercícios Teóricos

Atividade de texto

O texto abaixo foi escrito por Robert Fisk, correspondente de Oriente Médio do jornal The Independent, de Londres, em janeiro de 2003, dois meses antes da Segunda Guerra ao Iraque começar. Leia o texto com atenção e responda às perguntas no final:

Tony Blair tem alguma idéia de como sejam as moscas que se alimentam dos mortos?

por Robert Fisk - 26 de Janeiro de 2003

Numa estrada para Basra, Iraque, a ITV[1] estava filmando cães selvagens que atacavam corpos de iraquianos. A cada poucos segundos uma besta selvagem destroçava um braço em decomposição e corria com ele pelo deserto em frente de nós, dedos mortos enfiados na areia, restos de um uniforme militar voando ao vendo.

“Apenas pelo registro”, o câmara diz para mim. Claro. Porque a ITV nunca mostraria tais imagens. As coisas que nós vemos – a imundice e a obscenidade dos corpos não podem ser mostradas. Primeiro porque não é apropriado colocar tal realidade no horário nobre da TV. Segundo porque, bem, se o que nós vimos fosse mostrado na televisão, ninguém mais concordaria em apoiar uma guerra.

Isso, claro, foi em 1991. A “rodovia da morte”[2], como eles chamavam – ela tinha uma paralela e bem pior “rodovia da morte” dez milhas à oeste, corteria da Força Aérea Americana e da RAF inglesa[3], mas ninguém apareceu para filmá-la- e a única imagem dos horrores que vimos era uma fotografia de um soldado iraquiano ressecado e desidratado em seu caminhão. Isto era uma ilustração icônica de um gênero porque representava o que tínhamos visto, e quando seria eventualmente publicado.

Para que as baixas iraquianas pudessem aparecer durante aquela Guerra do Golfo – havia outra ocorrida entre 1980 e 1988, e uma terceira está a caminho – era necessário que eles tivessem caído com carinho, caído romanticamente, com a mão sobre o rosto arruinado. Como aquelas pinturas da Primeira Guerra Mundial dos britânicos mortos em Somme[4], os iraquianos tiveram que morrer de forma benigna e sem ferimentos evidentes, sem qualquer tipo de imundice, sem qualquer traço de fezes, muco[5] ou sangue coagulado, se eles quisessem aparecer nos programas de notícias da manhã.

Eu me revolto com essa ingenuidade. Em Qaa[6] em 1996, quando os israelenses fuzilaram refugiados libaneses numa instalação da ONU por 17 minutos, matando 106 civis, mais da metade deles crianças, eu vi uma jovem mulher segurando em seus braços um homem de meia idade. Ele estava morto. “Meu pai, meu pai”, ela continua chorando, inundando seu rosto. Um de seus braços e uma de suas pernas haviam desaparecido – os israelenses haviam utilizado balas explosivas que causam amputações – mas quando a cena alcançou as telas dos Estados Unidos e Europa a câmara se prendia à menina e ao rosto do homem morto. A amputação não era para ser vista. A causa da morte havia sido apagada em nome do bom gosto. Era um homem velho que havia morrido de cansaço, que havia virado sua cabeça para o ombro de sua filha para morrer em paz.

Hoje, quando eu escuto as ameaças de George Bush contra o Iraque e os vividos avisos morais de Tony Blair[7], eu me pergunto se eles conheceram esta terrível realidade: George, que se recusou a servir seu pais no Vietnã, tem alguma idéia do cheiro destes corpos? Tony tem a menor idéia de como sejam as moscas, as grandes moscas que se alimentam dos mortos no Oriente Médio e como elas vêm aos nossos rostos e cadernos de anotações?

Soldados sabem. Eu me lembro de um oficial britânico pedindo para usar o serviço de telefone via satélite da BBC[8] logo após a liberação do Kuwait[9] em 1991. Ele estava conversando com sua família na Inglaterra e observei-o com cuidado. “Vi algumas coisas terríveis”, ele dizia. E então ele caiu no chão, chorando e balançando o fone em direção ao aparelho de transmissão. Sua família tinha a menor idéia do que ele falava? Eles não teriam entendido assistindo televisão.

Então, assim podemos encarar o prospecto da guerra. Nossa gloriosa, patriótica população, mesmo que apenas 20% da população tenham apoiado esta particular fraude no Iraque – têm sido protegida das realidades da morte violenta. Mas eu fico impressionado com o número de cartas que recebo de veteranos da Segunda Guerra Mundial, homens e mulheres, todos contra essa nova Guerra do Iraque, com uma memória inalienável de corpos partidos e sofrimento.

Eu me lembro de um homem ferido no Irã, com um pedaço de aço na testa, berrando como animal – o que é que, claro, todos nós somos – antes que ele morresse e do menino palestino que simplesmente desabou na minha frente quando um soldado israelense o fuzilou, deliberadamente, friamente, sanguinolentamente, por jogar uma pedra, e do israelense com a perna de uma cadeira presa ao seu estômago na pizzaria da Sbarro[10][11] na Guerra Irã-Iraque – o cheiro dos corpos levitava pelo nosso helicóptero até que os mulás abordo ficaram enojados, e do jovem homem mostrando o leve rastro negro do sangue de sua filha em Algiers, Argélia, onde islamistas armados haviam cortado sua cabeça. em Jerusalém depois que um homem-bomba palestino havia decidido executar as famílias lá dentro e as pilhas de corpos de iraquianos mortos na batalha de Dezful

Mas George Bush, Tony Blair, Dick Cheney[12] e Jack Straw[13] e todos os outros guerreirozinhos que estão nos trapaceando para que participemos de uma guerra não terão que pensar sobre essas imagens baixas. Para eles é tudo sobre ataques cirúrgicos, danos colaterais e todos os exemplos da falsidade lingüística da guerra. Nós teremos uma guerra justa, nós iremos liberar o povo do Iraque – alguns dos quais nós obviamente iremos matar – e iremos trazer democracia, proteger seu petróleo, fazer julgamentos de crime de guerra e nós nunca fomos tão morais. Nos iremos assistir nossos “especialistas” em defesa de seus palanques sem sangue e seu fabuloso conhecimento de armas que cortam cabeças.

Pensando nisso, eu me lembro da cabeça de um refugiado da Albânia, cortada de forma rápida quando os americanos, nunca tão acidentalmente, bombardearam um comboio de refugiados em Kosovo[14] em 1999, no qual eles achavam que era uma unidade militar sérvia. Sua cabeça ficou entendida no chão, barbada, olhos abertos, decepada como se tivesse sido feito por um carrasco da dinastia de Tudor[15]. Meses depois, eu descobri o seu nome e conversei com a garota que havia sido atingida pela cabeça decepada no ataque americano e que havia deixado a cabeça reverentemente na grama aonde eu a encontrei. A Otan[16], claro, não se desculpou à família. Nem à garota. Ninguém pede desculpas depois de uma guerra. Ninguém reconhece a verdade depois dela. Ninguém mostra o que nós vemos. Que é a forma que nossos lideres e mestres nós persuadem a – ainda – ir à guerra.

1-) Segundo o autor, quais as razões pela qual as redes de televisão se recusam a mostrar as imagens reais de uma guerra?

2-) Ainda segundo o autor, qual a razão pela qual políticos como Tony Blair e George Bush continuam a apoiar a guerra?

3-) Quais exemplos o texto cita da forma como o contato direto com uma guerra altera a percepção dela por parte das pessoas?

4-) Quais exemplos o texto cita de imagens de guerra suavizadas por rede de televisão?

5-) A idéia central do texto – de que imagens fortes de uma guerra seriam suficientes para jogar a opinião pública contra este tipo de opção - é bastante comum entre meios intelectuais. Você concorda com isto? Se as redes de televisão exibissem imagens violentas da guerra isso seria suficiente para que a população se opusesse à ela? Qual o real poder que esse tipo de imagem têm entre as pessoas? Explique.

6-) Ao seu ver, qual a diferença entre uma guerra de verdade e a forma que ela é retratada nos filmes e outros objetos culturais?



 

[1] Uma rede de TV pública do Reino Unido.

 

[2] A auto-estrada que liga as cidades iraquianas de Basra e Bagdá, aonde blindados do Iraque foram alvo de intenso bombardeio por parte de tropas americanas durante a Primeira Guerra do Golfo de 1991.

 

[3] Royal Air Force, a força aérea do Reino Unido.

 

[4] Uma das mais famosas batalhas da Primeira Guerra Mundial.

 

[5] Catarro.

 

[6] Cidade de população cristã-ortodoxa do Líbano.

 

[7] Ex - Primeiro Ministro Inglês (1997-2007), que apoiou Bush ao invadir o Iraque

 

[8] A mais famosa rede de televisão do Reino Unido.

 

[9] País vizinho ao Iraque invadido em 1990, com tropas expulsa por uma coalizão liderada pelos americanos no ano seguinte.

 

[10] Famosa rede de pizzarias americana. Em agosto de 2001 a filial em Jerusalém foi alvo de atentado por terroristas palestinos, matando quinze pessoas.

 

[11] Cidade iraniana próxima à fronteira com o Iraque e palco de umas das primeiras batalhas na guerra entre os dois países em 1981.

 

[12] Vice-Presidente dos EUA, que apoiou de forma veemente a invasão.

 

[13] Então Secretário das Relações Exteriores do Reino Unido.

 

[14] Província de população albanesa da Sérvia que declarou independência em 1991, que resultaria num forte bombardeio contra os sérvios por tropas da Otan em 1999.

 

[15] Dinastia inglesa que governou a Inglaterra de 1485 a 1603, e ficaria famosa por diversas execuções por decapitação.

 

[16] Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar entre Estados Unidos e os países da Europa Ocidental.